quarta-feira, 6 de maio de 2009

E agora, ao lado de numerosas lições de modéstia gravadas na vossa memória pelo vosso pai, inscrevei ainda esta máxima: que só o tempo revela o que vale um grupo de desconhecidos, todas as línguas estão sempre prontas a dizer mal dos estrangeiros e facilmente se inclinam a sujá-las com insinuações. Por isso peço que não me cubram de vergonha com essa beleza que sobre vós chama o olhar dos homens.
Não é fácil olhar o tenro fruto maduro: todos querem meter-lhe o dente, homens e animais, bem no sabeis, os monstros que voam e os monstros que andam sobre o solo. Cypris proclama a atracção dos corpos cheios de sumo. Todos os homens que passam pelas virgens de formas delicadas lhes volvem olhares de encantamento, vencidos no amor. Sabendo isso, guardai-vos de sofrer ofensas que até aqui só conseguistes evitar à custa de fadigas sem conto e lavrando com a quilha do nosso barco grande extensão de mar; não vamos agora cometer erros, que seriam a nossa vergonha e uma alegria para os nossos inimigos. Mas segui os conselhos do vosso pai: tende em mais alta conta a modéstia do que a vida.



Ésquilo, As Suplicantes

segunda-feira, 4 de maio de 2009

poema de quem não procura a rima e a encontra sempre

Sempre
mais tarde e um pouco mais longe

um pouco mais, algo mais, em torno, um contorno
sempre sempre sempre
morno

aliterações consumadas
no tempo futuro de um depois sempre ausente

e as mãos que não podiam ver
não podiam curar
porque isto nunca se tratou de um converter

o depois há-de trazer, wittgensteinianamente

o velho pois
nele contido desde o primeiríssimo verso

e sendo que a primavera chegou mais cedo








será que o verão nos encontra a tempo certo?

sábado, 2 de maio de 2009

a palavra, a tal, escondida no fundo da arca velha:

Acreditar.

domingo, 26 de abril de 2009

Eu, Teresa, me confesso.
De uma santa lascívia que me construiu estas paredes de onde parto até vós.
Eu, Teresa, me confesso.
De ter dominado a língua e com ela me ter dominado por deus.
Eu, Teresa, me confesso.
De ignorar os desígnios dos senhores da lei episcopal, de ignorar os receios de meu pai, e de me ter apaixonado por demais.
Eu, Teresa, me confesso.
De uma culpa inconfessável, pois a ela eu obedeço, e para chegar a ti, Senhor, muy grande terá que ser essa culpa. Muy grande terá tido que ser a falta, ainda que inconfessável, porque a ela não acedo em imagem nítida, como a vós, senhor, que eu vejo e ouço.
Eu, Teresa, me confesso de vaidade e de pouco nobre vigília.
E da pretensão de a vós querer chegar, com estes meus humanos e fêmeos sentidos, e uma voz cheia de febre, daquela febre, da qual a razão se parece por vezes ausentar.
Eu, Teresa, me confesso.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

la clé, la lettre, et l'éternuement.



j'ai besoin d'un ouragan, d'un orage:
aucune langue ne semble être à moi.
la pluie peut être la mienne,
le vent est le mien,
les sifflements...


mais la langue

la langue ne l'est jamais.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Numa terra em que pedro-procura-inês, não restam paredes para te encontrar.
Ainda assim, espero.

E a realidade assombra. Será ela o que nos separa?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

as minhas vozes todas, com todas as vozes tuas, quantas serão ao final da sinfonia?...