sábado, 17 de outubro de 2009

desejo de mão descalça em ombro nu

(ou mais um arremesso por falta de caneta)



condensar

expropriar

diluir




lembro-me de o calo existir desde a queda do muro
um indicador de força constantemente a pisar o irmão do meio


isto, quando as ideias não eram vapores
e eu ainda subia às árvores


agora o encantamento faz-se paralisia e a ânsia sonolência
os calos pertencem aos calcanhares



a maior parte das vezes, pelo menos

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sonhei que um tango me batia à porta e acordei a morrer de sede.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

e se atrás da rima se encontrar o poema?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

não me julgues por um mau verso, pode ser que ele tombe e me deixe de pé.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

para o eterno não há cura

vem matar-me o cinismo

por favor
vem queimar-me as entranhas e profanar a poesia:
é assim que ela se alimenta, morrendo de cada vez

vem sufocar-me a rima:
pode ser que o que se esconde atrás dela surja assim sem as palavras

e vem por favor riscar-me da pele o contrato com este tempo:
dá-me a sede, que o meu corpo quer incêndio
e está-se nas tintas para a cicatriz

é lembrando tudo que o retorno te assiste

é querendo tudo

a falha, a dobra, o precipício
o risco

sobretudo a vertigem





vem por favor lembrar-me da vertigem:
não me esqueci ainda que é ela o signo da altura

domingo, 20 de setembro de 2009

adeiar

às vezes as minhas ideias são um bocado desgrenhadas. sá-carneiro, o mário atento, e não o do atentado, talvez as achasse ruivas. outros haverá que as poderão achar aladas demais, que é como quem diz um pouco chaladas. outros mários as dirão porventura um tanto ou mais cerebrais. a mim a maior parte das noites servem-me bem. confundem-se umas com as outras e revelam sempre novos graus (ou asas de grous). é embaraçando-se que se cruzam para tecer o pano do véu em puzzle, como bordadeiras do próprio pão. são também vorazes parasitas umas das outras. e com isso vivem bem. e eu deitava-me bem com elas.

mas agora ao nascer do dia elas parecem-me simplesmente ideias e aí as ideias parecem-me menos do que ar porque já não servem para respirar e por isso é aí que eu quase desisto e me demoro tanto a levantar. é de manhã que as ideias me doem. e é por isso que as minhas noites nunca querem ir dormir. por saber que um quase, invariavelmente neste caso, se transformará sempre num devir e que é isto tudo, cada linha, cada letra, cada sopro, apenas mais um pequeno encadear num pequeno encadear a que se chamam as ideias, e que essas para mais não servem do que para o adiar.



respira, ana, respira. faz-te o favor de respirar.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Então é assim... fazendo bem as contas, à vida e às nóias e aos apegos e seus contrários: no final da matemática espiritual, importa é saber que há ainda quem espere por nós para começar o concerto.

E nós, público cheio de soberba que só se atrasa por vis motivos, talvez não nos livremos da baba e do ranho se atropelarmos de novo o tempo e não eliminarmos a distância. E nós, que um dia criámos espaços de tempo fora de uma vida que nos pede sempre uma caução, talvez nos safemos, se quando for realmente necessário a memória não nos falhar.