segunda-feira, 26 de outubro de 2009

cimentar

concretizar

descarnar



(é em triângulos que costumo dobrar a minha linha)



estico o olhar que me resta para longe das sombras
e das caixinhas de veludo azul

cada uma com a sua chave
perfeita
dourada
e cheia de rebites

como se o ouro fosse porventura calar o nevoeiro


ou aliviar o fardo da melodia


todos esses extremíssimos agudos
são só tombos na gravidade, apertos no estômago e dentes de lobo
são a carne que com a carne trincha a carne

é bem mais grave a velada gravidez da linha recta


do baixo sopro a vibrar na madeira que reveste o teu coração de pedra


e o desejo cinzento das palavras em granito

grave, denso, enevoado


pontuando a negro as vírgulas e as reticências

solares nódoas negras

fundas crateras



e magníficos rasgões de luz

sábado, 17 de outubro de 2009

desejo de mão descalça em ombro nu

(ou mais um arremesso por falta de caneta)



condensar

expropriar

diluir




lembro-me de o calo existir desde a queda do muro
um indicador de força constantemente a pisar o irmão do meio


isto, quando as ideias não eram vapores
e eu ainda subia às árvores


agora o encantamento faz-se paralisia e a ânsia sonolência
os calos pertencem aos calcanhares



a maior parte das vezes, pelo menos

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sonhei que um tango me batia à porta e acordei a morrer de sede.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

e se atrás da rima se encontrar o poema?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

não me julgues por um mau verso, pode ser que ele tombe e me deixe de pé.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

para o eterno não há cura

vem matar-me o cinismo

por favor
vem queimar-me as entranhas e profanar a poesia:
é assim que ela se alimenta, morrendo de cada vez

vem sufocar-me a rima:
pode ser que o que se esconde atrás dela surja assim sem as palavras

e vem por favor riscar-me da pele o contrato com este tempo:
dá-me a sede, que o meu corpo quer incêndio
e está-se nas tintas para a cicatriz

é lembrando tudo que o retorno te assiste

é querendo tudo

a falha, a dobra, o precipício
o risco

sobretudo a vertigem





vem por favor lembrar-me da vertigem:
não me esqueci ainda que é ela o signo da altura

domingo, 20 de setembro de 2009

adeiar

às vezes as minhas ideias são um bocado desgrenhadas. sá-carneiro, o mário atento, e não o do atentado, talvez as achasse ruivas. outros haverá que as poderão achar aladas demais, que é como quem diz um pouco chaladas. outros mários as dirão porventura um tanto ou mais cerebrais. a mim a maior parte das noites servem-me bem. confundem-se umas com as outras e revelam sempre novos graus (ou asas de grous). é embaraçando-se que se cruzam para tecer o pano do véu em puzzle, como bordadeiras do próprio pão. são também vorazes parasitas umas das outras. e com isso vivem bem. e eu deitava-me bem com elas.

mas agora ao nascer do dia elas parecem-me simplesmente ideias e aí as ideias parecem-me menos do que ar porque já não servem para respirar e por isso é aí que eu quase desisto e me demoro tanto a levantar. é de manhã que as ideias me doem. e é por isso que as minhas noites nunca querem ir dormir. por saber que um quase, invariavelmente neste caso, se transformará sempre num devir e que é isto tudo, cada linha, cada letra, cada sopro, apenas mais um pequeno encadear num pequeno encadear a que se chamam as ideias, e que essas para mais não servem do que para o adiar.



respira, ana, respira. faz-te o favor de respirar.