sábado, 14 de novembro de 2009

infiltrações desejadas

espécie de matriz enciclopédica


da mãe enclausurada
tremente

escapemos por favor ao cadavérica
esta sede vai bem mais fundo que o inferno
e a rima só desaustina as braçadas para a outra margem

besunta-me lá de vão conhecimento


e partirei simplesmente

isso que a cabeça fala já o corpo pressente
esse esfaimado devorado
o dono da febre e do telúrio

sensual esfaqueador de asas


é conceito por demais vazio



e esse azul será apenas teu

metal meu será sempre mais vermelho
mais diluído

sempre aguerrido

e sempre desgarrado



e consumado o destino ainda lhe sobra o fôlego para cobrir o sol com o teu dó

mas o que soçobra é o acordar do mi
num acorde laranja vivo e denso
ouro fiel e manso pautado pelos dedos mais velhos do mundo


e nas tuas mãos
o sangue

o meu sangue ainda quente




afligem-me ainda e apenas essas andorinhas esventradas por um outono sonolento

essas notas alheias sopradas ao vento

e umas quantas rimas inusitadas

terça-feira, 10 de novembro de 2009

as porcelanas.
as salamandras.
as cortinas.

rezará porventura a história dos crocodilos?
ou dos devoradores de vidros?
dos dós sustenidos?
dos sis contraídos?


quem te fez acreditar que só um final era possível?
que o aí e o aqui não podiam existir a um tempo certo?



mesmo sabendo quem te criou

o que falta saber
o que te falta mesmo saber


a ré
do lá

(e um fá para mi a saber a limão)


será que é preciso ver
para deixar de crer?


e do ouvir?
e do haver?


e do largar?

cuidar.



cuidar.

sábado, 31 de outubro de 2009

Anita, a fiel marinheira.



(n.b.: "marinheira" dá erro. ou então ser-se sublinhada a vermelho é coisa boa.)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eu sono tenho, vontade de dormir é que me falta.







É também mais ou menos por isso que uso botas quando era suposto andar de sandálias.


E que ando descalça quando devia andar de galochas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

cimentar

concretizar

descarnar



(é em triângulos que costumo dobrar a minha linha)



estico o olhar que me resta para longe das sombras
e das caixinhas de veludo azul

cada uma com a sua chave
perfeita
dourada
e cheia de rebites

como se o ouro fosse porventura calar o nevoeiro


ou aliviar o fardo da melodia


todos esses extremíssimos agudos
são só tombos na gravidade, apertos no estômago e dentes de lobo
são a carne que com a carne trincha a carne

é bem mais grave a velada gravidez da linha recta


do baixo sopro a vibrar na madeira que reveste o teu coração de pedra


e o desejo cinzento das palavras em granito

grave, denso, enevoado


pontuando a negro as vírgulas e as reticências

solares nódoas negras

fundas crateras



e magníficos rasgões de luz

sábado, 17 de outubro de 2009

desejo de mão descalça em ombro nu

(ou mais um arremesso por falta de caneta)



condensar

expropriar

diluir




lembro-me de o calo existir desde a queda do muro
um indicador de força constantemente a pisar o irmão do meio


isto, quando as ideias não eram vapores
e eu ainda subia às árvores


agora o encantamento faz-se paralisia e a ânsia sonolência
os calos pertencem aos calcanhares



a maior parte das vezes, pelo menos

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sonhei que um tango me batia à porta e acordei a morrer de sede.