terça-feira, 17 de novembro de 2009

petição ao piano sem cauda

a determinada altura, dir-se-ia que chorava
a guitarra, pois

mas depois, e de repente

a epifania


são cordas, senhor, são cordas



serão sempre cordas, meu amor

as minhas
as tuas
e o contorno das deles

das cordas se farão correntes
amarras e sobreviventes


tenho a alma congelada

acordei-me a uma voz dormente

encurralei-me no contratempo
e na reverberação artificial do cantar no sítio errado



é o chão que a voz tem que segurar, menina, nunca o seu destino



e agora só mais umas redundâncias vaporosas a anteceder a imagem sonora
a verdadeira imagem sonora, a origem da tragédia proscrita


um corredor

um enorme corredor escuro para alojar o teu desconsolo



e algumas janelas para escorraçar o tédio

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

sofro de todos os males.


























(possuo todas as curas.)

sábado, 14 de novembro de 2009

infiltrações desejadas

espécie de matriz enciclopédica


da mãe enclausurada
tremente

escapemos por favor ao cadavérica
esta sede vai bem mais fundo que o inferno
e a rima só desaustina as braçadas para a outra margem

besunta-me lá de vão conhecimento


e partirei simplesmente

isso que a cabeça fala já o corpo pressente
esse esfaimado devorado
o dono da febre e do telúrio

sensual esfaqueador de asas


é conceito por demais vazio



e esse azul será apenas teu

metal meu será sempre mais vermelho
mais diluído

sempre aguerrido

e sempre desgarrado



e consumado o destino ainda lhe sobra o fôlego para cobrir o sol com o teu dó

mas o que soçobra é o acordar do mi
num acorde laranja vivo e denso
ouro fiel e manso pautado pelos dedos mais velhos do mundo


e nas tuas mãos
o sangue

o meu sangue ainda quente




afligem-me ainda e apenas essas andorinhas esventradas por um outono sonolento

essas notas alheias sopradas ao vento

e umas quantas rimas inusitadas

terça-feira, 10 de novembro de 2009

as porcelanas.
as salamandras.
as cortinas.

rezará porventura a história dos crocodilos?
ou dos devoradores de vidros?
dos dós sustenidos?
dos sis contraídos?


quem te fez acreditar que só um final era possível?
que o aí e o aqui não podiam existir a um tempo certo?



mesmo sabendo quem te criou

o que falta saber
o que te falta mesmo saber


a ré
do lá

(e um fá para mi a saber a limão)


será que é preciso ver
para deixar de crer?


e do ouvir?
e do haver?


e do largar?

cuidar.



cuidar.

sábado, 31 de outubro de 2009

Anita, a fiel marinheira.



(n.b.: "marinheira" dá erro. ou então ser-se sublinhada a vermelho é coisa boa.)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eu sono tenho, vontade de dormir é que me falta.







É também mais ou menos por isso que uso botas quando era suposto andar de sandálias.


E que ando descalça quando devia andar de galochas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

cimentar

concretizar

descarnar



(é em triângulos que costumo dobrar a minha linha)



estico o olhar que me resta para longe das sombras
e das caixinhas de veludo azul

cada uma com a sua chave
perfeita
dourada
e cheia de rebites

como se o ouro fosse porventura calar o nevoeiro


ou aliviar o fardo da melodia


todos esses extremíssimos agudos
são só tombos na gravidade, apertos no estômago e dentes de lobo
são a carne que com a carne trincha a carne

é bem mais grave a velada gravidez da linha recta


do baixo sopro a vibrar na madeira que reveste o teu coração de pedra


e o desejo cinzento das palavras em granito

grave, denso, enevoado


pontuando a negro as vírgulas e as reticências

solares nódoas negras

fundas crateras



e magníficos rasgões de luz