ouço lá ao longe uma espingarda
bem diferente é ouvir uma automática
essa é por trauma e por norma bem mais surda que o rasgar de uma naifada
mas é lá ao longe
bem longe
que eu agora ouço essa espingarda
há ainda
e pelo menos
um ponto final
uma espécie de parágrafo
um outro conto proposto
qualquer coisa saturada
desnaturada
é que o novo é já velho e gasto e chato
querê-lo, parece-me, é só mais um perder do tempo
uma espécie de vomitar em seco
ou então um paravento para as velas deste barco
dá-me o golpe, o tiro, a machadada
sabes que isto não vai lá nem com drogas nem com garrote
nem com vírus
nem com cancro
nem com este poema saltimbanco
rebuscado, rebuscado
até que noves fora nada
é de cor que nos lembramos
lengalenga retorcida
todo o caos pode caber
mas só se for para rasgar
só se
desta vez
for mesmo para seguir até ao fim do berro
domingo, 13 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
é que a vitória não se calça
parece mais digno o desperdício
ainda que um saco roto
ou sempre que em saco roto
tem buraco, mas envolve
(que é do gás e do enxofre?)
não é pois o vazio o que te comove?
metal da espada e da corrente
se queres a rima, leva a rima
seja dela quem te aguente
dança minha é mais pungente
haverá lá manha homónima
ou enredo homofonista
é que nem mesmo uma paronímia
me arranca deste desleixo
é à pele que ele se agarra
e não ao profundo do peito
é no desejo que mora
e é no mar que ele se vê
traz lá
traz-me lá a voz ao meu desejo
em troca te prometo suspiros como jóias
cantares como lamentos
e
se ficares para isso
e
se eu ficar para isso também
prometo mostrar-te como um mundo faz dois mundos
e dois mundos melhores mundos
parece mais digno o desperdício
ainda que um saco roto
ou sempre que em saco roto
tem buraco, mas envolve
(que é do gás e do enxofre?)
não é pois o vazio o que te comove?
metal da espada e da corrente
se queres a rima, leva a rima
seja dela quem te aguente
dança minha é mais pungente
haverá lá manha homónima
ou enredo homofonista
é que nem mesmo uma paronímia
me arranca deste desleixo
é à pele que ele se agarra
e não ao profundo do peito
é no desejo que mora
e é no mar que ele se vê
traz lá
traz-me lá a voz ao meu desejo
em troca te prometo suspiros como jóias
cantares como lamentos
e
se ficares para isso
e
se eu ficar para isso também
prometo mostrar-te como um mundo faz dois mundos
e dois mundos melhores mundos
domingo, 30 de maio de 2010
como Hécuba
podes ter tu visto a morte de uns quantos
e a miséria de uns quantos
e a gaguez de uns tantos
como Teresa
rezado pelo sangue de uns poucos
velado pela alma de uns outros
e distribuído garrafas de água numa barraquinha da maratona
Como Hermione
chorado, suplicado
ironizado
E como Calíope
como só dela
cantado
o que te salva
o que te afina
o que te leva
podes ter tu visto a morte de uns quantos
e a miséria de uns quantos
e a gaguez de uns tantos
como Teresa
rezado pelo sangue de uns poucos
velado pela alma de uns outros
e distribuído garrafas de água numa barraquinha da maratona
Como Hermione
chorado, suplicado
ironizado
E como Calíope
como só dela
cantado
o que te salva
o que te afina
o que te leva
quarta-feira, 5 de maio de 2010
tudo isto porque em mim
as línguas são sempre tremores:
umas adensam-se mais a norte do ventre
outras mais a sul
umas parecem congelar-me o peito
enquanto se enrijecem nas pontas dos meus dedos
(e a rima lá chega tão óbvia quanto precisa)
há línguas cheias de medos
há a língua fortaleza
e uma língua binarista
para não haver confusões lapidares
há uma língua conquista
e uma língua dos favores
e há sempre línguas recessas
avessas
(e, bem, lá está a rima)
línguas travessas
línguas janelas, línguas escadas
língua mãe casa
língua trela
língua asa
e língua nascida em cofre-forte
língua de corte
e língua que cose
língua barata e de consorte
língua palavra
maldita
reformada
encavalitada
língua sombra
encurralada
língua vaca
língua puta
língua estria
língua carne
língua veia
língua assombro
língua dura
língua leite e língua morte
há a língua que arrepia
e uma língua nova, míope
língua estrada ou horizonte
há uma língua deserta
e uma despovoada
uma é ainda virgem, a outra foi abandonada
haverá uma língua grávida
e uma língua tudo ou nada
e há pois todo o sangue que nos acompanha
os saltos
as névoas
as trovoadas
e partidas iguais às chegadas
umas adensam-se mais a norte do ventre
outras mais a sul
umas parecem congelar-me o peito
enquanto se enrijecem nas pontas dos meus dedos
(e a rima lá chega tão óbvia quanto precisa)
há línguas cheias de medos
há a língua fortaleza
e uma língua binarista
para não haver confusões lapidares
há uma língua conquista
e uma língua dos favores
e há sempre línguas recessas
avessas
(e, bem, lá está a rima)
línguas travessas
línguas janelas, línguas escadas
língua mãe casa
língua trela
língua asa
e língua nascida em cofre-forte
língua de corte
e língua que cose
língua barata e de consorte
língua palavra
maldita
reformada
encavalitada
língua sombra
encurralada
língua vaca
língua puta
língua estria
língua carne
língua veia
língua assombro
língua dura
língua leite e língua morte
há a língua que arrepia
e uma língua nova, míope
língua estrada ou horizonte
há uma língua deserta
e uma despovoada
uma é ainda virgem, a outra foi abandonada
haverá uma língua grávida
e uma língua tudo ou nada
e há pois todo o sangue que nos acompanha
os saltos
as névoas
as trovoadas
e partidas iguais às chegadas
domingo, 2 de maio de 2010
I'm a widow
I'm a window
I'm a plumber and a keeper
I'm the air
I'm the hands
and the voice you will beseech
I'm the anchor
and the coat
when nothing else will row the boat
I'm a sailor
I'm the tailor
I'll be the storm as I am the bailey
never the bailor
never your bailer
I'm an archer
I'm a torch
I am light being your black
and that's why we'll always come back
and always one step ahead
I'm a sister
I'm your lover
not a leech you struggle over
mirror mirror what can you say?
enjoy the flesh of this array
sleeping beauty before dismay
no faults, no fouls
no aching hearts to be devoured
no rain
no blame
no fear
only love can bring us near
I'm a window
I'm a plumber and a keeper
I'm the air
I'm the hands
and the voice you will beseech
I'm the anchor
and the coat
when nothing else will row the boat
I'm a sailor
I'm the tailor
I'll be the storm as I am the bailey
never the bailor
never your bailer
I'm an archer
I'm a torch
I am light being your black
and that's why we'll always come back
and always one step ahead
I'm a sister
I'm your lover
not a leech you struggle over
mirror mirror what can you say?
enjoy the flesh of this array
sleeping beauty before dismay
no faults, no fouls
no aching hearts to be devoured
no rain
no blame
no fear
only love can bring us near
sábado, 24 de abril de 2010
A palavra finalmente adormeceu. Necessário foi muito embalar, muito sussurrar, muito aconchegar. Mas para já dorme, dorme ainda, em sono não tão pesado quanto feliz. Não a acordes, por favor. Só desta vez, deixa-a dormir. Mesmo ganhando a guerra, não quer dizer que se saia ileso das batalhas. Descansa por isso a tua também, que o reinado será como sempre longo, duro, e ofegante.
Neste conto, são sempre os silêncios que resolvem os conflitos.
Neste conto, são sempre os silêncios que resolvem os conflitos.
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