faltará a fome à casa, ou faltará a casa à fome?
é tão duvidoso
é sempre duvidoso
escrever o poema nas paredes como cravar a carne no poema
fiquemos por isso num qualquer transtorno do meio
de meio
mais crucial do que social
e mais natural do que sentimental
blah blah blah octogonal
tem tentáculos, mas não é polvo
é uma espécie de infinito
que preferia de quando em vez estar só
de pernas para o ar
ou de cabeça no céu
e não ser somente arremessado ao vento para quem o conseguir apanhar
o peso não é domínio do vertical
do oito concreto
empinado
recto e governado
e o resto, o todo
o oito caído
desolado
querer é crer e da mesma maneira o contrário
como o oito de pé ou deitado
há sempre um instinto paradoxal a roer o sangue nas veias
mas não te assustes
pelo menos
não te assustes mais do que eu
o instinto tem farol e o paradoxo faroleiro
o caos sangra
o medo corta
o vento entorta
e endireita
resta saber onde está o freio
o raio do meio
o zero
sobre zero
ante zero
a cave do zero
resta rasgar a carne e partir o granito destas paredes
o caos sangra
o medo corta
e algures
não escondido,
mas resguardado
onde não se encontram bengalas
e se abrem as janelas
aí
longe da pele
perto da fala
há um cais que sara
quarta-feira, 14 de julho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
pouca terra
mar à vista
não é vento o que me tolhe
se pouca a terra
o mar se avista
não há chão que nos arraste
esta vista quer conquista
carne sangue voz
o grito
é o berro que iça as velas
e mesmo que seja o silêncio a equilibrar o navio
é sempre vocal a questão do balanço
do dar lanço
(berra pois que nem um bezerro sem dar azo à bezerrice)
quão mais agudo ergues o canto
mais longe te leva o tempo
trata então de afinar as cordas
de lavar as velas
e se preciso de tecer uma nova tessitura
que venha o tormento de um cabo
as reverberações desfasadas
o enjoo das tempestades
para tudo há partitura
menos para o vento
mas venha o medo
a calmaria
uma afasia acamada com escorbuto na alma
pouca terra
o mar
a vista
desfocada
para quê ser patrão de barco quando o posso ser do mar
navegar o mar
bonito e hidráulico pensamento
prestes a afundar
mas antes disso
resta acreditar que virá uma onda soprada em contratempo
calar de vez as palavras para que a voz regresse ao cais
se ela não vier
será então tarde demais para se ouvir um "Ana, olha que cais!"
e nem rima nem tropeção te virá resgatar do tombo
mar à vista
mar avista
se perdes a vista do mar levas a vista ao chão
e se levas a vista ao chão levas a vida ao soalho
e se levas a vida ao soalho
obviamente
cais
se não perdes a vista do mar levas a vista ao fim
e se levas a vista ao fim levas a vida ao fundo
e se levas a vida ao fundo
talvez lá chegues
mar à vista
não é vento o que me tolhe
se pouca a terra
o mar se avista
não há chão que nos arraste
esta vista quer conquista
carne sangue voz
o grito
é o berro que iça as velas
e mesmo que seja o silêncio a equilibrar o navio
é sempre vocal a questão do balanço
do dar lanço
(berra pois que nem um bezerro sem dar azo à bezerrice)
quão mais agudo ergues o canto
mais longe te leva o tempo
trata então de afinar as cordas
de lavar as velas
e se preciso de tecer uma nova tessitura
que venha o tormento de um cabo
as reverberações desfasadas
o enjoo das tempestades
para tudo há partitura
menos para o vento
mas venha o medo
a calmaria
uma afasia acamada com escorbuto na alma
pouca terra
o mar
a vista
desfocada
para quê ser patrão de barco quando o posso ser do mar
navegar o mar
bonito e hidráulico pensamento
prestes a afundar
mas antes disso
resta acreditar que virá uma onda soprada em contratempo
calar de vez as palavras para que a voz regresse ao cais
se ela não vier
será então tarde demais para se ouvir um "Ana, olha que cais!"
e nem rima nem tropeção te virá resgatar do tombo
mar à vista
mar avista
se perdes a vista do mar levas a vista ao chão
e se levas a vista ao chão levas a vida ao soalho
e se levas a vida ao soalho
obviamente
cais
se não perdes a vista do mar levas a vista ao fim
e se levas a vista ao fim levas a vida ao fundo
e se levas a vida ao fundo
talvez lá chegues
sábado, 19 de junho de 2010
fly on the wall/your neck to the ground - track 04/05
so, what would you say if I managed to stay in silence?
I've been here for quite a while, and I know you won't decline: this sword you point at me is made of glue, and I never knew the way to point back at you. I've been here for quite a while. and when I seem to get in line, I see your smoky shades of blue and always find a way to come back to you. smiling hands inviting in, to feel this strenght inside of me. all is simple when I fail to see. when our words are this confuse, I carve an S right on the muse, and clearly my mind will release. I've been mad for quite a while, but I can't veil it, nor discard. infatuations lasted too long to derive through these ageless thoughts and flares that you cannot hide. friendly ghosts will keep you in this aching strenght inside of me, but all is simple when I try to see. and when our words get this confuse, I'll carve an S right on the muse and clearly my mind will release.
then eights are doubled guesses, many riddles keep you in.
never knew my time to come
devils and prophets all play the same game.
promised to keep a trace. to save a place where you can hide. promised to grow inside the silent mourning made our night. promised to glide away, though never stray out of your lace. bodies changing place, hollowing the souls of these youngsters made of ice. they can feel the heat, only when they bleed. but then your silence turns so unkind... a silence so different from mine. it's been raining outside since forever and a life. but there's still this black orchid kept away from the light.
hands tied
to welcome me
promised
to wear this letter
the sacred pin of a deadly sin
promised to wear your letter
the sacred pin of my deadly sin
red
crimson pain melting my skin for long time used to ice
it seems like I can feel only when I bleed
it seems like I can see
hands tied to welcome me
hands tied
then eights are doubled guesses, many riddles keep you in.
never knew my time to come
devils and prophets all play the same game.
promised to keep a trace. to save a place where you can hide. promised to grow inside the silent mourning made our night. promised to glide away, though never stray out of your lace. bodies changing place, hollowing the souls of these youngsters made of ice. they can feel the heat, only when they bleed. but then your silence turns so unkind... a silence so different from mine. it's been raining outside since forever and a life. but there's still this black orchid kept away from the light.
hands tied
to welcome me
promised
to wear this letter
the sacred pin of a deadly sin
promised to wear your letter
the sacred pin of my deadly sin
red
crimson pain melting my skin for long time used to ice
it seems like I can feel only when I bleed
it seems like I can see
hands tied to welcome me
hands tied
domingo, 13 de junho de 2010
ouço lá ao longe uma espingarda
bem diferente é ouvir uma automática
essa é por trauma e por norma bem mais surda que o rasgar de uma naifada
mas é lá ao longe
bem longe
que eu agora ouço essa espingarda
há ainda
e pelo menos
um ponto final
uma espécie de parágrafo
um outro conto proposto
qualquer coisa saturada
desnaturada
é que o novo é já velho e gasto e chato
querê-lo, parece-me, é só mais um perder do tempo
uma espécie de vomitar em seco
ou então um paravento para as velas deste barco
dá-me o golpe, o tiro, a machadada
sabes que isto não vai lá nem com drogas nem com garrote
nem com vírus
nem com cancro
nem com este poema saltimbanco
rebuscado, rebuscado
até que noves fora nada
é de cor que nos lembramos
lengalenga retorcida
todo o caos pode caber
mas só se for para rasgar
só se
desta vez
for mesmo para seguir até ao fim do berro
bem diferente é ouvir uma automática
essa é por trauma e por norma bem mais surda que o rasgar de uma naifada
mas é lá ao longe
bem longe
que eu agora ouço essa espingarda
há ainda
e pelo menos
um ponto final
uma espécie de parágrafo
um outro conto proposto
qualquer coisa saturada
desnaturada
é que o novo é já velho e gasto e chato
querê-lo, parece-me, é só mais um perder do tempo
uma espécie de vomitar em seco
ou então um paravento para as velas deste barco
dá-me o golpe, o tiro, a machadada
sabes que isto não vai lá nem com drogas nem com garrote
nem com vírus
nem com cancro
nem com este poema saltimbanco
rebuscado, rebuscado
até que noves fora nada
é de cor que nos lembramos
lengalenga retorcida
todo o caos pode caber
mas só se for para rasgar
só se
desta vez
for mesmo para seguir até ao fim do berro
terça-feira, 1 de junho de 2010
é que a vitória não se calça
parece mais digno o desperdício
ainda que um saco roto
ou sempre que em saco roto
tem buraco, mas envolve
(que é do gás e do enxofre?)
não é pois o vazio o que te comove?
metal da espada e da corrente
se queres a rima, leva a rima
seja dela quem te aguente
dança minha é mais pungente
haverá lá manha homónima
ou enredo homofonista
é que nem mesmo uma paronímia
me arranca deste desleixo
é à pele que ele se agarra
e não ao profundo do peito
é no desejo que mora
e é no mar que ele se vê
traz lá
traz-me lá a voz ao meu desejo
em troca te prometo suspiros como jóias
cantares como lamentos
e
se ficares para isso
e
se eu ficar para isso também
prometo mostrar-te como um mundo faz dois mundos
e dois mundos melhores mundos
parece mais digno o desperdício
ainda que um saco roto
ou sempre que em saco roto
tem buraco, mas envolve
(que é do gás e do enxofre?)
não é pois o vazio o que te comove?
metal da espada e da corrente
se queres a rima, leva a rima
seja dela quem te aguente
dança minha é mais pungente
haverá lá manha homónima
ou enredo homofonista
é que nem mesmo uma paronímia
me arranca deste desleixo
é à pele que ele se agarra
e não ao profundo do peito
é no desejo que mora
e é no mar que ele se vê
traz lá
traz-me lá a voz ao meu desejo
em troca te prometo suspiros como jóias
cantares como lamentos
e
se ficares para isso
e
se eu ficar para isso também
prometo mostrar-te como um mundo faz dois mundos
e dois mundos melhores mundos
domingo, 30 de maio de 2010
como Hécuba
podes ter tu visto a morte de uns quantos
e a miséria de uns quantos
e a gaguez de uns tantos
como Teresa
rezado pelo sangue de uns poucos
velado pela alma de uns outros
e distribuído garrafas de água numa barraquinha da maratona
Como Hermione
chorado, suplicado
ironizado
E como Calíope
como só dela
cantado
o que te salva
o que te afina
o que te leva
podes ter tu visto a morte de uns quantos
e a miséria de uns quantos
e a gaguez de uns tantos
como Teresa
rezado pelo sangue de uns poucos
velado pela alma de uns outros
e distribuído garrafas de água numa barraquinha da maratona
Como Hermione
chorado, suplicado
ironizado
E como Calíope
como só dela
cantado
o que te salva
o que te afina
o que te leva
quarta-feira, 5 de maio de 2010
tudo isto porque em mim
as línguas são sempre tremores:
umas adensam-se mais a norte do ventre
outras mais a sul
umas parecem congelar-me o peito
enquanto se enrijecem nas pontas dos meus dedos
(e a rima lá chega tão óbvia quanto precisa)
há línguas cheias de medos
há a língua fortaleza
e uma língua binarista
para não haver confusões lapidares
há uma língua conquista
e uma língua dos favores
e há sempre línguas recessas
avessas
(e, bem, lá está a rima)
línguas travessas
línguas janelas, línguas escadas
língua mãe casa
língua trela
língua asa
e língua nascida em cofre-forte
língua de corte
e língua que cose
língua barata e de consorte
língua palavra
maldita
reformada
encavalitada
língua sombra
encurralada
língua vaca
língua puta
língua estria
língua carne
língua veia
língua assombro
língua dura
língua leite e língua morte
há a língua que arrepia
e uma língua nova, míope
língua estrada ou horizonte
há uma língua deserta
e uma despovoada
uma é ainda virgem, a outra foi abandonada
haverá uma língua grávida
e uma língua tudo ou nada
e há pois todo o sangue que nos acompanha
os saltos
as névoas
as trovoadas
e partidas iguais às chegadas
umas adensam-se mais a norte do ventre
outras mais a sul
umas parecem congelar-me o peito
enquanto se enrijecem nas pontas dos meus dedos
(e a rima lá chega tão óbvia quanto precisa)
há línguas cheias de medos
há a língua fortaleza
e uma língua binarista
para não haver confusões lapidares
há uma língua conquista
e uma língua dos favores
e há sempre línguas recessas
avessas
(e, bem, lá está a rima)
línguas travessas
línguas janelas, línguas escadas
língua mãe casa
língua trela
língua asa
e língua nascida em cofre-forte
língua de corte
e língua que cose
língua barata e de consorte
língua palavra
maldita
reformada
encavalitada
língua sombra
encurralada
língua vaca
língua puta
língua estria
língua carne
língua veia
língua assombro
língua dura
língua leite e língua morte
há a língua que arrepia
e uma língua nova, míope
língua estrada ou horizonte
há uma língua deserta
e uma despovoada
uma é ainda virgem, a outra foi abandonada
haverá uma língua grávida
e uma língua tudo ou nada
e há pois todo o sangue que nos acompanha
os saltos
as névoas
as trovoadas
e partidas iguais às chegadas
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