eu sei
sempre soube
que o cais é uma miragem
uma feliz miragem
só a queda é que não o é
se cais
quando cais
abres ferida
roxeias a pele
e saras o golpe
o rasgão
fica-te a cicatriz
a carne é que guarda a memória
tudo o resto não é real
são meros tropos
encalços trôpegos
sinédoques bem bebidas
malabarismos do espírito
vulgares psicossomatismos
memórias das chagas do cristo, talvez
e talvez, por que não, biombos
é se calhar esta a ideia perfeita para se juntar ao tombo
eu sei
sempre soube
o cais é uma miragem
se fosse engenheira fazia pontes e estava o assunto sanado
mas não
idiota
escolhi ser marinheira
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
no tempo do terceiro andar da estrela andava-se mais triste mas sorria-se mais vezes
e um mar de antenas a cobrir os céus mas debaixo dos teus olhos
no tempo do terceiro andar da estrela podia fotografar-me de vários ângulos geográficos
ora os pés pousados nas grades da varanda do quarto
a rematar a cúpula lá para os lados de leonardoora um dedo a empurrar o cristo para dentro do maracanã
e ainda pelas américas
a óbvia santidade de francisco
lá por baixo uma visão de beco parisiensetudo isto enfiado no alto dos meus olhos do terceiro andar da estrela
a cidade vivia-me mas era no mundo que eu morava
há muito me vim embora
fiz as mudanças de eléctrico
ainda guardo comigo as fotografias mas nunca olho para elas
a cidade dorme-me
faltam-me as escadas de incêndio
ainda guardo comigo as fotografias mas nunca olho para elas
a cidade dorme-me
faltam-me as escadas de incêndio
terça-feira, 31 de agosto de 2010
o tempo tem tempos
os tempos
abrigos
entre o um e o dois tivemos a coragem da infelicidade
não juntos
mas ao mesmo tempo
de mergulhar
ver o dentro dessa tal felicidade
e de voar
de ver a infertilidade do binário
o dever
o depois do ver
que vai entre o meio e o caminho
certas verdades hão-de ser eternas náufragas
e sorte a do teu navio se com elas se afundar
pois não é que te disse sempre que chegava mais tarde
disse-te sempre que o meio era ao lado, meu amor
disse-mo sempre.
os tempos
abrigos
entre o um e o dois tivemos a coragem da infelicidade
não juntos
mas ao mesmo tempo
de mergulhar
ver o dentro dessa tal felicidade
e de voar
de ver a infertilidade do binário
o dever
o depois do ver
que vai entre o meio e o caminho
certas verdades hão-de ser eternas náufragas
e sorte a do teu navio se com elas se afundar
pois não é que te disse sempre que chegava mais tarde
disse-te sempre que o meio era ao lado, meu amor
disse-mo sempre.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
falha-me a vida à vida
já a morte nunca se lhe falha
tudo o resto são cartas e o ser que as baralha
a entidade
o senhor Desidério
a cargo dos encargos dos desejos e dos folhos
do que falta aos olhos
os dados meramente dobram
ou simplesmente afundam
as apostas colhem
escolhem
recolhem
e humanizam
tiram o erro das cartas e devolvem a falha ao homem
podem sempre faltar pintas negras numa das suas alvas faces
mas a mão foi sempre a tua
a partir de certa altura o casino vida é uma mera questão de fichas
dados infantes
coroas adultas
podes seguir a golpe de mojito ou de cicuta
a escolha é tua
entre a praia e a reduta redundância uma blasfémia democrática e muda a espanejar
a espoeirar
a varrer
a varrer arre pois a varrer
os fétidos vapores de uma ágora corrupta
de uma guerra
de uma puta
dessa grandessíssima filha de puta
e ai de nós falarmos mulheres de outras mulheres
ai o feminismo
ai o socialismo
ai o culturalismo
a política do égua lismo
nem machos nem sanguessugas
prefiro corujas trafulhas
olham
vêem
escutam
vivem hoje dentro desta minha espécie de reserva emocional bandos e bandos de corujas
umas quantas diásporas de andorinhas e umas matilhas de rouxinóis
a todos dirijo o vento
a ti as notas do sopro
mas só às corujas as sigo
serenas
sábias
complacentes
por elas passaram já todas as mágoas
ouviram já ranger todos os dentes
para o mundo
para este mundo
já não precisam de lentes
todos os filtros lhes couberam
entre os olhos e o coração já se fez o meio caminho
resta-nos louvar os mortos
agradecer os vivos
e tomar-lhes
aos lobos
esses olhos meus olhos atentos
emprestados pelas corujas
já a morte nunca se lhe falha
tudo o resto são cartas e o ser que as baralha
a entidade
o senhor Desidério
a cargo dos encargos dos desejos e dos folhos
do que falta aos olhos
os dados meramente dobram
ou simplesmente afundam
as apostas colhem
escolhem
recolhem
e humanizam
tiram o erro das cartas e devolvem a falha ao homem
podem sempre faltar pintas negras numa das suas alvas faces
mas a mão foi sempre a tua
a partir de certa altura o casino vida é uma mera questão de fichas
dados infantes
coroas adultas
podes seguir a golpe de mojito ou de cicuta
a escolha é tua
entre a praia e a reduta redundância uma blasfémia democrática e muda a espanejar
a espoeirar
a varrer
a varrer arre pois a varrer
os fétidos vapores de uma ágora corrupta
de uma guerra
de uma puta
dessa grandessíssima filha de puta
e ai de nós falarmos mulheres de outras mulheres
ai o feminismo
ai o socialismo
ai o culturalismo
a política do égua lismo
nem machos nem sanguessugas
prefiro corujas trafulhas
olham
vêem
escutam
(e se pensarmos que entre o pescoço e os olhos destas soturnas senhoras vão cinco centímetros no espaço dois e um meio para cima dois e um meio para baixo e que a meio caminho entre as duas suas mais limítrofes iluminadas paralelas vão cinco paridos de um meio e que nesse novo meio a visão roda sinistra e destra e se nunca nunca a dita tudo vê ao mesmo tempo mas tudo percorre percorre tudo e aquilo que não vê ainda ainda pressente e o que deixa de ver sempre lembra e o que vai ver já viu ainda que em intermitência como um farol em penitência como um moinho sem vento e da mesma maneira que a eira traz sempre o abismo à beira entro mergulho dentro do poema lanço-me da ribanceira e morro ao largo do um aéreo fonema porque o sistema só pode ser visto entre o meio abaixo de uns olhos que sentem e o meio acima de um coração que cliché a cliché a cliché raios partam a rima ainda vê)
vivem hoje dentro desta minha espécie de reserva emocional bandos e bandos de corujas
umas quantas diásporas de andorinhas e umas matilhas de rouxinóis
a todos dirijo o vento
a ti as notas do sopro
mas só às corujas as sigo
serenas
sábias
complacentes
por elas passaram já todas as mágoas
ouviram já ranger todos os dentes
para o mundo
para este mundo
já não precisam de lentes
todos os filtros lhes couberam
entre os olhos e o coração já se fez o meio caminho
resta-nos louvar os mortos
agradecer os vivos
e tomar-lhes
aos lobos
esses olhos meus olhos atentos
emprestados pelas corujas
domingo, 8 de agosto de 2010
Failure is always a guarantee.
The error has been (and Beckett, the Exhausted, knew it far too well) focusing on the attempts, the merry go round of rides and rides trying to get to an inexistent place where just for once we will not fail, just like a donkey chases the carrot it will never taste. The very difference lies on the fact that we ourselves hold the cane in front of our eyes so we can keep going, for a few more rides, on and on from the beginning to the end of our godamn lives. Hey cutie, wanna try a little with me for a while?
We've all been trying too much for far too long, now.
(It can't be... natural? At least since after a few rounds...)
Back to the failure:
Lets not focus on the path we took to get there: lets look directly at the error itself.
Everything else is always foreseeable. Everything, but the error. The unpredictable. The knight in shining armor silently hidden all along the way.
There, only there, we may still find some shreds of Beauty.
Is there anything else we should be seeking?
Well, I'm just sayin'
We should trade one carrot for another.
The error has been (and Beckett, the Exhausted, knew it far too well) focusing on the attempts, the merry go round of rides and rides trying to get to an inexistent place where just for once we will not fail, just like a donkey chases the carrot it will never taste. The very difference lies on the fact that we ourselves hold the cane in front of our eyes so we can keep going, for a few more rides, on and on from the beginning to the end of our godamn lives. Hey cutie, wanna try a little with me for a while?
We've all been trying too much for far too long, now.
(It can't be... natural? At least since after a few rounds...)
Back to the failure:
Lets not focus on the path we took to get there: lets look directly at the error itself.
Everything else is always foreseeable. Everything, but the error. The unpredictable. The knight in shining armor silently hidden all along the way.
There, only there, we may still find some shreds of Beauty.
Is there anything else we should be seeking?
Well, I'm just sayin'
We should trade one carrot for another.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
onde me escondeste os versos, fado velho?
onde pousaste as minhas rimas?
essas cores com que te insinuas
quase me fazem crer que a luz sufoca
não não não
há que ser mais virtuoso
(e mais uma vez tento impedir a rima de me trazer o esposo,
e como nunca o consigo disso vou fazendo gozo)
mas diz-me lá afinal onde me estancaste a fala?
e onde me esfolaste estes dedos que já não conseguem iludir as cordas?
apagou-se a luz
talvez se tenha apagado a luz
a luz está apagada
ainda respiro
sim ainda
a luz apagada
é cá dentro ou lá fora?
não vejo nada
será costume sonhar com o nada?
mas este breu afinal
é cá dentro?
principalmente te pergunto
é cá de dentro?
ou de lá de fora?
respiro
contudo
ainda
sem resposta
ainda
respiro ainda
mas pela minha carne
e não pelos teus olhos
onde pousaste as minhas rimas?
essas cores com que te insinuas
quase me fazem crer que a luz sufoca
não não não
há que ser mais virtuoso
(e mais uma vez tento impedir a rima de me trazer o esposo,
e como nunca o consigo disso vou fazendo gozo)
mas diz-me lá afinal onde me estancaste a fala?
e onde me esfolaste estes dedos que já não conseguem iludir as cordas?
apagou-se a luz
talvez se tenha apagado a luz
a luz está apagada
ainda respiro
sim ainda
a luz apagada
é cá dentro ou lá fora?
não vejo nada
será costume sonhar com o nada?
mas este breu afinal
é cá dentro?
principalmente te pergunto
é cá de dentro?
ou de lá de fora?
respiro
contudo
ainda
sem resposta
ainda
respiro ainda
mas pela minha carne
e não pelos teus olhos
quinta-feira, 22 de julho de 2010
gosto especialmente da palavra laivo. tem ares de uivo.
um laivo pode ser surdo
imagem poética e incandescente
lavas dilúvios eflúvios
e uma data de jorros quentes
já o uivo soa a outras coisas para mim mais marianas
do mário longe
de um mar antigo
uma maré ausente
e à conta dos laivos de mário e dos uivos do mar te digo:
escondi algumas notas bem ao fundo do armário
lá entaladas no canto
entre um cimento que deveria obviamente ser madeira
e os cobertores da herança
mais uns dois ou três ferros ornamentos
roubados ao elevador
resguardo essas notas bem longe da ganância da garganta
da sede do laivo
da fome do uivo
dos socos no estômago
e do soco nos estômagos
aqui não há já corações para remendar como se faz com as meias
e mesmo havendo rasgões nas teias
as aranhas não são mancas
as palavras
alavancas
e o amor aos solavancos
obriga-o a um metrónomo
se o quiseres ver espernear
ou então
simplesmente
faz por lhe dar o pão
e o vinho
mas ao primeiro acrescenta as nozes
ao segundo o pau da canela
e se, pelo caminho,
para chegar aqui, portanto
esbanjei umas quantas valsas
ri perdida com uns tantos sambas
e sobrevivi a uma data de boleros enfadonhos
se
pelo caminho
cheguei aqui
te digo
guardei as notas
guardei-nos ainda as notas para bordar o tango
um laivo pode ser surdo
imagem poética e incandescente
lavas dilúvios eflúvios
e uma data de jorros quentes
já o uivo soa a outras coisas para mim mais marianas
do mário longe
de um mar antigo
uma maré ausente
e à conta dos laivos de mário e dos uivos do mar te digo:
escondi algumas notas bem ao fundo do armário
lá entaladas no canto
entre um cimento que deveria obviamente ser madeira
e os cobertores da herança
mais uns dois ou três ferros ornamentos
roubados ao elevador
resguardo essas notas bem longe da ganância da garganta
da sede do laivo
da fome do uivo
dos socos no estômago
e do soco nos estômagos
aqui não há já corações para remendar como se faz com as meias
e mesmo havendo rasgões nas teias
as aranhas não são mancas
as palavras
alavancas
e o amor aos solavancos
obriga-o a um metrónomo
se o quiseres ver espernear
ou então
simplesmente
faz por lhe dar o pão
e o vinho
mas ao primeiro acrescenta as nozes
ao segundo o pau da canela
e se, pelo caminho,
para chegar aqui, portanto
esbanjei umas quantas valsas
ri perdida com uns tantos sambas
e sobrevivi a uma data de boleros enfadonhos
se
pelo caminho
cheguei aqui
te digo
guardei as notas
guardei-nos ainda as notas para bordar o tango
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