segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A dança do mundo é breve.


Tratemos portanto de cuidar bem os tornozelos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ah pois é já me esquecia


que isto às vezes tem piada

nunca sabes se és partida ou se és chegada

se essa porta é a da saída ou a da entrada

ou se és apenas corredor de passagem


melhor contudo porém apesar de tudo que sejas a passagem no corredor


mas se fores porta, que me leves pelo menos a um jardim perto do lago
é que o mar está muito caro

e se corredor te achares, que te tenhas claro
que em ti tenhas, claro
uma data de janelas


isto tudo a respeito e sem depósito de umas meras telas
de umas quantas pinceladas

nem o bordado tem direito a aniversário

chega-nos uma caneta de feltro para marcar as reticências

ponto a ponto a ponto
se sucedem os pontos que nos pesam como a cruz


e lá se escapou o ora pois então traiçoeiro das janelas



é em ti que vomito sempre esta minha prece sem velas



é que uma coisa é carregares em cima de ti um véu

e outra bem diferente é seres um reles par de cortinas



siga só mais um xarope só para ver se te animas
só mais um conhaque
um brinde à memória
essa náusea verde com o cheiro do absinto

à partida eu sinto
de partida
eu sinto
e quero
e sinto
e quero mesmo muito

sem ti me minto


sou janela pano carne febre esmola tributo

aqui jazo
espero
nasço

e me consinto

assim


abandono os esquemas os dilemas as ilusões dos contrastes


chicoteiam-me os fonemas para que me liberte dos sintagmas


eu que só queria ser morfema
que canta por ser a filha
e é enquanto mãe que dança

que dança


e dança




tropeça




tropeça







tropeça





tropeça










e dança.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

descarta-me por favor das tentativas
dos mapas mentais

eu não sou um território
sou um não-lugar
aqui não há nada para cartografar


a não ser que resolvas escrever-me uma carta
isso ainda é do mais romântico que há

é isso,
escreve-me cartas

elas não deixaram de ser idiotas

mas pode ser que as tornes menos prosaicas



não
não sou um território



mas posso ser a tua caixa de correio

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

o meu tédio escreve poemas


mas só quando não está com azia


não interessa rimar com a poesia
só com o resto
com o entretanto
com o aliás
com o por menor


é que não és tu que escolhes a rima
ela te escolhe a ti para descarnar os pontos cegos
ela está sempre no antes e no depois do eu
independentemente de a encontrares nesse durante


o meu tédio escreve poemas

pelo caminho encontra rimas que não procuro




simplesmente
aprendi a ter o cuidado de não as afugentar

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

eu sei

sempre soube
que o cais é uma miragem

uma feliz miragem

só a queda é que não o é

se cais
quando cais
abres ferida
roxeias a pele
e saras o golpe
o rasgão

fica-te a cicatriz

a carne é que guarda a memória

tudo o resto não é real

são meros tropos
encalços trôpegos
sinédoques bem bebidas
malabarismos do espírito
vulgares psicossomatismos
memórias das chagas do cristo, talvez

e talvez, por que não, biombos
é se calhar esta a ideia perfeita para se juntar ao tombo


eu sei
sempre soube


o cais é uma miragem



se fosse engenheira fazia pontes e estava o assunto sanado

mas não




idiota






escolhi ser marinheira

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

no tempo do terceiro andar da estrela andava-se mais triste mas sorria-se mais vezes

é-se sempre mais contente quando temos escadas de incêndio


e um mar de antenas a cobrir os céus mas debaixo dos teus olhos



no tempo do terceiro andar da estrela podia fotografar-me de vários ângulos geográficos


ora os pés pousados nas grades da varanda do quarto
a rematar a cúpula lá para os lados de leonardo
ora um dedo a empurrar o cristo para dentro do maracanã
e ainda pelas américas
a óbvia santidade de francisco
lá por baixo uma visão de beco parisiense

tudo isto enfiado no alto dos meus olhos do terceiro andar da estrela



a cidade vivia-me mas era no mundo que eu morava



há muito me vim embora

fiz as mudanças de eléctrico


ainda guardo comigo as fotografias mas nunca olho para elas




a cidade dorme-me





faltam-me as escadas de incêndio


terça-feira, 31 de agosto de 2010

o tempo tem tempos



os tempos

abrigos



entre o um e o dois tivemos a coragem da infelicidade

não juntos
mas ao mesmo tempo

de mergulhar
ver o dentro dessa tal felicidade

e de voar





de ver a infertilidade do binário



o dever

o depois do ver



que vai entre o meio e o caminho


certas verdades hão-de ser eternas náufragas

e sorte a do teu navio se com elas se afundar




pois não é que te disse sempre que chegava mais tarde



disse-te sempre que o meio era ao lado, meu amor
disse-mo sempre.