segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

chega de navios


o mar já não me mete medo


tenho é saudades de esfolar os joelhos


o mapa mundo não é metáfora do eu ser
o eu ser é que é metáfora do mapa mundo

e a não ser que desejes viver entre os peixes
(bem mais fácil criar guelras do que asas)
mais vale deixares-te por terra e teres uma janela para o mar

chegam-te os olhos para te lembrar no mar
que o caminho está todo nos pés com que andas
e que o mar está todo dentro da cabeça


toda esta fé num cais serviu um fim
o seu fim
era pre-cisa
foi necessária
acima de tudo
o importante
foi sempre

poupar os tornozelos

e rezar por uma terra onde coubesse a tua dança



o medo do afogamento é bem mais lírico do que o seu correspondente terreno

se fosse para morrer na praia, que fosse na água e não enterrada na areia


e eu sempre me safei bem a nadar
a aposta lírica era uma aposta sólida


mas chega, pois
de navios
de velas e cabos e tormentas

chega de mar




é sempre o mesmo céu sobre as nossas cabeças

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

le mot

le quai


le repos


palavra pousada
pousada palavra

na palavra
a ana cai
na palavra

a ana resta

a ana manca

falta a ana à palavra ou a palavra à ana

nem sequer falemos de faltar a carne à sala


o que resta do nosso fígado apanha o sol de março na varanda, mesmo sendo janeiro, mesmo quando é outubro

enrolo-me no horizonte
e continuo,


se não falta cais falta navio

e se as velas sobram o vento não leva



é mera brisa o sopro que te atropela


mas não te apoquentes
não muito pelo menos

há que rezar pelo tornado que sendo pressa e desalento
te obriga a parar o tempo e a chafurdar no espaço


certas geometrias não carecem de compasso

farei sempre a apologia do estilhaço
mas ai dos meus nervos quando alguém deixa cair o copo
ou a palavra

só o texto pode ser desgovernado
cair ao chão
partir-se
ser arremessado contra a cabeça bonita de uma donzela
espetado no baço de um futuro moribundo
ou atirado como ovos podres no carnaval


a palavra é sempre anárquica,
nunca cai, nunca se desgoverna

tem nela o cais, a queda e o navio


tu, tu é que cais na palavra

cais em ti dentro da palavra


e em vez de te deixares vir calmamente à superfície desse mar abismo
desatas a esbracejar o texto onde te irás afogar

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Enquanto se vive não se conta.


Nem se poema.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

aqui não se querem companheiros

lutamos apenas pelos cúmplices


reciproca-se a idade como se de um sentimento se tratasse
como se fosse ela que pelo instinto falasse

ora um gracejo
ora uma falácia

nunca tentes que um bocejo rime com a tua audácia

meras eras
quimeras, quiseras
é por turvo encosto que se te abaula a face
mas nunca é pelo punho que o amor nos nasce

quem deras
esperas, kunderas
o meu espaço há-de rimar sempre com esferas
com as feras, pois, e com o cansaço

há um laço entre o estar e o estar como o aço

a prata o ouro o estilhaço

queira eu
quem dera
quem me deras
a quem deras
a quem eras

por quem te esmeras
e com quem faço

isso das esperas e dos fracassos e do mais do que estar aço ser ferro


respira agora a minha vida dentro da tua demora
será sempre edipiana a cumplicidade que contar a história

e a mediana vai ser sempre transitória


por isso pois então porque não por que não

diz-me onde moras


dir-te-ei quem fui



onde estás? onde és? onde me és?

onde te dói?





por quem te esperas?


diz-me quem queres ser
e eu trago-te a morar comigo

sei ser paráfrase e sei ser abrigo

já deixei para trás o crime e o castigo


a janela e o postigo





sê-me varanda

que eu te seja varanda


sejamos varanda


sem muro, sem gradeamento





e pintemos a nossa vista







prometo todas as noites rezar para que não nos estatelemos em chão i-mundo

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A dança do mundo é breve.


Tratemos portanto de cuidar bem os tornozelos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ah pois é já me esquecia


que isto às vezes tem piada

nunca sabes se és partida ou se és chegada

se essa porta é a da saída ou a da entrada

ou se és apenas corredor de passagem


melhor contudo porém apesar de tudo que sejas a passagem no corredor


mas se fores porta, que me leves pelo menos a um jardim perto do lago
é que o mar está muito caro

e se corredor te achares, que te tenhas claro
que em ti tenhas, claro
uma data de janelas


isto tudo a respeito e sem depósito de umas meras telas
de umas quantas pinceladas

nem o bordado tem direito a aniversário

chega-nos uma caneta de feltro para marcar as reticências

ponto a ponto a ponto
se sucedem os pontos que nos pesam como a cruz


e lá se escapou o ora pois então traiçoeiro das janelas



é em ti que vomito sempre esta minha prece sem velas



é que uma coisa é carregares em cima de ti um véu

e outra bem diferente é seres um reles par de cortinas



siga só mais um xarope só para ver se te animas
só mais um conhaque
um brinde à memória
essa náusea verde com o cheiro do absinto

à partida eu sinto
de partida
eu sinto
e quero
e sinto
e quero mesmo muito

sem ti me minto


sou janela pano carne febre esmola tributo

aqui jazo
espero
nasço

e me consinto

assim


abandono os esquemas os dilemas as ilusões dos contrastes


chicoteiam-me os fonemas para que me liberte dos sintagmas


eu que só queria ser morfema
que canta por ser a filha
e é enquanto mãe que dança

que dança


e dança




tropeça




tropeça







tropeça





tropeça










e dança.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

descarta-me por favor das tentativas
dos mapas mentais

eu não sou um território
sou um não-lugar
aqui não há nada para cartografar


a não ser que resolvas escrever-me uma carta
isso ainda é do mais romântico que há

é isso,
escreve-me cartas

elas não deixaram de ser idiotas

mas pode ser que as tornes menos prosaicas



não
não sou um território



mas posso ser a tua caixa de correio